Sensibilidade e Bom Senso

Astrologia e terapias alternativas

No actual panorama da Astrologia em Portugal começa a surgir, de forma cada vez mais premente, o problema das misturas indevidas das chamadas "terapias alternativas".
Muitos são os que, procurando tratar todos os males e resolver todos os problemas numa única consulta, juntam à leitura do mapa astrológico a "receita" de vários produtos, exercícios e práticas.
Na maior parte dos casos, este procedimento é fruto da boa fé e da genuína vontade de ajudar. Noutros, contudo, podemos falar de fraude deliberada e potencialmente perigosa, capaz de causar danos físicos e emocionais.

O maior problema parece ser a falta de um critério comum, capaz de servir de padrão a uma oferta sempre crescente mas de qualidade muito variável.
Na prática da Astrologia, como em tudo na vida, há que saber distinguir entre o ecletismo consciente, esclarecido e responsável e as misturas "new age" tão em voga actualmente.

A "filosofia" que serve de base a estas misturas assenta em princípios universais. Estes princípios contém, de facto, uma verdade irrefutável. Contudo, à força de serem repetidos e deturpados, acabaram por perder grande parte da sua força, tornando-se lugares comuns.
Falamos de conceitos tão verdadeiros e intemporais como "tudo é energia" ou "o que está em cima é como o que está em baixo".
Reconhecê-los e aceitá-los é fácil. Difícil é saber aplicá-los no contexto certo. Difícil é também fugir à tentação de usá-los como resposta pronta e definitiva para questões que não conhecemos a fundo.
E há que reconhecer que, por vezes, uma abordagem pretensamente "holística" pode estar a ocultar a pura e simples falta de conhecimento.

Holístico sem "mistura"

Importa realçar que estas misturas não são, necessariamente, "erradas" ou prejudiciais. A abordagem interdisciplinar, quando responsável e esclarecida, tem resultados reconhecidamente válidos e positivos.
Tudo aponta, aliás, para que os tratamentos do futuro venham a resultar da síntese e fusão das diversas disciplinas. Esta síntese já está a ser levada a cabo por terapeutas esclarecidos e responsáveis, que contribuem, de forma séria e empenhada, para a realização destes objectivos.

Está, de resto, reconhecida a existência de uma base comum ao conhecimento esotérico, uma correspondência simbólica profunda entre factores (só) aparentemente separados.

Apesar do abuso e da descontextualização a que está tantas vezes sujeita, a abordagem holística mantém o seu valor. É, de resto, a única abordagem verdadeiramente capaz de fazer justiça à dimensão humana, nas suas facetas física, emocional, mental e espiritual.

Pena é que esta abordagem seja tantas vezes usada como desculpa para a ignorância e apresentada como resposta universal, capaz de responder a tudo e calar todas as perguntas.

No caso específico da Astrologia, importa frisar que se trata de uma disciplina cuja complexidade e profundidade vai muito além da sua versão mais popular, divulgada em jornais e revistas. É um corpo de conhecimentos muito vasto, com uma dinâmica e uma coerência próprias. Abrange áreas como o desenvolvimento individual e a psicologia de massas, e integra questões históricas, políticas, médicas, financeiras e espirituais, para citar apenas algumas.

Esta auto-suficiência, contudo, nunca excluiu a interacção com outros ramos do conhecimento. Muitos foram os astrólogos que, no passado, recorreram à combinação de diversos conhecimentos (astrológicos e não-astrológicos), com resultados muito favoráveis.

O que os distinguia dos actuais praticantes era o conhecimento profundo e responsável das disciplinas que usavam de forma combinada.
Este conhecimento era fundamental para as suas carreiras. O seu empenho tinha, aliás, uma motivação fortíssima: caso as suas práticas e interpretações não fossem bem sucedidas, as suas carreiras - e as suas próprias vidas - podiam terminar de forma abrupta.
Compreende-se, assim, que não houvesse lugar para o diletantismo e a irresponsabilidade. ... Uma situação bem diferente da que vivemos hoje...

Actualmente, continua a ser possível articular (mas sem misturar) a Astrologia com outras disciplinas, desde que tal seja feito com plena consciência por parte do astrólogo e, obviamente, com a aceitação do consulente.

Existem, contudo, dois requisitos essenciais para que a consulta de Astrologia seja válida e benéfica.
O primeiro, e mais óbvio, é o conhecimento abrangente e sempre actualizado da Astrologia, das indispensáveis técnicas de aconselhamento, e também de qualquer prática ou conhecimento que se pretenda usar como complemento. Para o astrólogo, estas técnicas deverão funcionar apenas como complemento opcional e nunca como "remendo" para colmatar ou disfarçar a pura e simples falta de conhecimentos astrológicos. Há que evitar a tudo o custo a tão divulgada "salada russa esotérica".
O outro requisito, mais subtil, reside no próprio conceito de consulta e nos seus objectivos. Esta deverá ser, sempre e em qualquer caso, uma situação de diálogo e respeito, em que ambos os participantes estejam igualmente empenhados na compreensão e no crescimento. Só assim a consulta será capaz de criar oportunidades e de desenvolvimento de consciência do consulente.

Em resumo: para que a consulta de Astrologia seja válida, benéfica e construtiva, é preciso que exista um conhecimento profundo e uma grande sensibilidade por parte de quem assume a responsabilidade de consultar, e um sólido bom senso e uma expectativa realista por parte de quem a recebe.
Sem estes requisitos, não há técnica, mistura holística ou "intuição" que nos valham...

"Muita parra, pouca uva..."

Outro grande problema resultante da mistura indevida de disciplina é o facto de darem azo a grandes teorias, quantas vezes sonantes e elaboradas, mas que não apresentam resultados práticos e fiáveis.

Embora estas alternativas afirmem promover o desenvolvimento pessoal, muitas delas apenas servem para manter e reforçar estados de "apatia espiritual" e de falta de auto-consciência. (De resto, a satisfação e o "bem-estar" pessoal não são necessariamente sinónimo de desenvolvimento e crescimento - basta ver o exemplo da vida de grandes pensadores, filósofos e mestres espirituais para o compreender).

Desconfiemos, portanto, das "misturas astrológicas" que tudo prometem - desde a saúde ao amor, passando pelo dinheiro e pelas "iniciações espirituais" - sem pedir em troca qualquer verdadeiro esforço de auto-consciência ou de disciplina pessoal. (Em 99% dos casos, o suposto ganho de consciência e desenvolvimento espiritual prometidos não passam de formas de reforço e "engorda" do ego...)
Longe de ajudar, o excesso de informação e a mistura indevida de técnicas pode obscurecer os processos, as crises e os confrontos que fazem o indivíduo crescer.

Para a ajudar verdadeiramente os outros nestas crises, o astrólogo deve começar por ajudar-se a si mesmo. É indispensável que desenvolva um trabalho pessoal e contínuo de conciência e maturidade.
Sem ele, continuaremos a ter quem faça consultas de "alternativas" como quem faz campismo selvagem: com muita descontracção, poucas preocupações e total irresponsabilidade.
E a pesada factura de equívocos e danos continuará a ser paga por quem, com boa-fé e confiança, se entrega às mãos de tais "terapeutas".

O nosso desafio para o futuro será o de desenvolver uma noção global de "ecologia humana e espiritual". Como base desta "ecologia" teremos a já referida sensibilidade, que nos permite entrar em empatia com os outros, e o proverbial bom-senso, que nos impede de "levantar os pés do chão".

O objectivo último será sempre o respeito pelo equilíbro e pelos os "tempos de crescimento" de cada consulente, evitando informação excessiva e misturas indigestas.


Helena Avelar e Luís Ribeiro


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