A responsabilidade do Astrólogo

Por Helena Avelar, Lisboa 26-09-1999

A Astrologia Natal, na sua vertente de consulta e aconselhamento, põe ao praticante uma série de questões a priori, que ultrapassam as próprias técnicas astrológicas. A primeira delas é, sem dúvida, a questão da responsabilidade pessoal

Antes ainda de dominar totalmente as chamadas "técnicas astrológicas" nas suas múltiplas vertentes, o Astrólogo deverá saber gerir a subtil arte do aconselhamento. Para tal, deverá cumprir uma série de requisitos pessoais.

Deverá ser capaz de se pôr em causa, capaz de aprender com os próprios erros (porque certamente que os fará) e com os erros dos outros, capaz de empatizar com os outros e ainda capaz de reformular, uma vez e outra, os seus métodos e sistemas, de forma a torná-los cada vez mais inclusivos, multidimensionais e abrangentes.

Deverá, em resumo, constituir-se como um ser humano consciente, criativo e suficientemente corajoso para fazer da Astrologia um trampolim no doloroso processo da transformação de consciência, em vez de a usar como escudo para esconder problemas e insuficiências pessoais ou ainda como pedestral para vivenciar situações de superioridade fictícia.

Saber ouvir é uma técnica exigente, por vezes difícil.

Saber escutar é uma arte.

O aconselhamento apoia-se, porventura, nestas duas bases.

Requer humildade, paciência, criatividade, vontade de aprender, empatia, sentido de humor, capacidade de improviso e um forte sentido prático. Requer ainda, a níveis muito profundos, a aceitação incondicional (mas nem por isso sentimental ou piegas) do Outro, em toda a sua grandeza e em toda a sua mesquinhez.

É por isso que, antes ainda de iniciar a consulta, o Astrólogo deverá pôr de lado todo e qualquer pré-conceito que possa ter àcerca daquilo que considera "adequado", "certo" e "bom" para o consulente. Esta perspectiva, mesmo que carregada de boas intenções, é sempre limitativa, porque está pesadamente tingida pelas vivências, ideologias, medos e expectativas do próprio Astrólogo.

Respeitar o ser humano e as suas opções - sem, contudo, deixar de lhe transmitir uma perspectiva ética suficientemente "universal" para ser identificada e vivida por pessoas das mais diversas origens culturais, étnicas e religiosas - é talvez o principal requisito do Astrólogo. Isso exige-lhe que, antes do mais, trabalhe no seu próprio processo evolutivo, de forma a atingir níveis cada vez mais refinados de qualidade humana e espiritual.

Antes de avançar com quaisquer conselhos e sugestões, o Astrólogo deve ter em conta que na maior parte dos casos, os pedidos insistentes de esclarecimentos e directivas específicas estão a encobrir um problema grave, ainda que bastante comum: a incapacidade de assumir a responsabilidade pelas próprias decisões. Perante o Astrólogo, o consulente pode criar uma falsa imagem parental, a quem vai exigir atenção e cuidados constantes, omnisciência e omnipresença e ainda paciência e compreensão infinitas. E se estas expectativas não forem cumpridas, no tempo e na medida esperadas, a desilusão será amarga.

Cabe ao Astrólogo lidar com estas questões, que por vezes se sobrepõem ao aconselhamento astrológico propriamente dito, com sabedoria, tacto e muita clareza de espírito. O estudo das qustões de transferência e contra-transferência analizados em Psicologia tem, neste contexto, todo o cabimento.

Poderíamos contrapôr que esta questão da responsabilidade e do critério nos conselhos é comum a todo e qualquer profissional de aconselhamento.

Assim é, na verdade. Mas importa sublinhar que no caso do Astrólogo esta responsabilidade é muito maior porque o seu papel como conselheiro e terapeuta atinge, na imaginação de alguns consulente, níveis quase míticos, muito semelhantes aos dos feiticeiros e "xamãs" de outrora.

Isto porque o Astrólogo está a lidar com uma área que, para a grande maioria dos consulentes, é não apenas desconhecida e assustadora mas também fatídica, determinativa e transcendente. Na sua imaginação, o Astrólogo não só interpreta mas também, de alguma forma, "domina" os misteriosos acontecimentos do céu e, por consequência, as suas repercussões na terra. É, portanto, uma espécie de intermediário dos "deuses", capaz de lhes interpretar os desígnios e de lhes transmitir as preces dos "comuns mortais".*

Perante uma tão grande expectativa (muitas vezes apenas vagamente consciencializada) o Astrólogo deverá ter uma atitude extremamente lúcida: total consciência das próprias falhas, incapacidades e limitações. Deverá também ter um sólido senso comum e uma boa dose de senso de humor, que lhe permitirão escapar à possibilidade de encenar (perante o consulente e perante si mesmo) um papel de falso profeta ou de falso messias.

Esta possibilidade, muito forte e insidiosa, não se prende apenas com a tentação intelectual de "mostrar o que se sabe", passando também, nalguns casos, pelo apelo emocional, mais subtil mas nem por isso menos intenso, de "ajudar" ou "salvar" o consulente. Acresce dizer que esta é, sem dúvida, a questão mais difícil de reconhecer e ultrapassar, mas também a mais importante. Sem uma boa gestão desta fase (porque de uma fase se trata no longo processo de "crescimento" de um conselheiro astrológico) o Astrólogo ficaria para sempre limitado a prestar um serviço medíocre, onde confundiria pena com Compaixão, intensidade emocional com Amor e boas intenções com eficácia.

É por esse motivo que, em vez de se esforçar para "predizer" e "aconselhar", o Astrólogo prestará melhor serviço ao consulente se souber ouvi-lo e, sobretudo, escutá-lo naquilo que não chega nunca a ser verbalizado.

Esta etapa da consulta, quando bem vivenciada, permitirá identificar e entender os medos mais profundos, despistar à partida as expectativas deslocadas e ainda delinear novas perspectivas, devidamente contextualizadas mas ainda assim inovadoras e libertadoras.

Na explanação que, forçosamente se seguirá, torna-se sobretudo importante que, em vez de "deitar as culpas" dos problemas para os planetas, aspectos, trânsitos ou quaisquer outros factores astrológicos, o Astrólogo ajude o consulente a tomar gradualmente consciência das consequências e efeitos dos seus actos e escolhas, numa perspectiva que, longe de ser fatalista, pode ser descondicionadora, por levar à quebra de padrões restritivos e à abertura de novas possibilidades.

Ao terminar a consulta, importa sintetizar tudo o que foi dito (e não dito) num todo coerente e ligado a um contexto maior, de forma a possibilitar ao consulente uma vivência imediata e prática dos assuntos em questão.

De nada servem as chamadas "previsões" (por muito acuradas e específicas que sejam) se não estiverem relacionadas a uma perspectiva evolutiva e suficientemente criativa para levar a pessoa a descobrir por si mesma novas possibilidades e novos potenciais, ou seja, novas formas de lidar com velhos problemas.

De nada servem, portanto, as previsões e os "brilharetes" astrológicos se estes nada acrescentarem ao processo de crescimento do consulente.

O objectivo da interpretação não é, portanto, "acertar" ou "predizer" o futuro, mas pôr o consulente em contacto com o seu próprio potencial, relacionando-o ainda com o contexto maior em que está integrado - o Universo em que vivemos. O objectivo será, em suma, o de ajudar o consulente a crescer como ser humano, coisa que só acontecerá se o Astrólogo for, ele mesmo um ser humano digno desse nome.

* É interessante verificar que este tipo de atitude (com todas as expectativas que sto implica) pode surgir não apenas nos consulentes de tendência "supersticiosa" mas também (e com mais frequência do que se julga, nos intelectuais ou cépticos, de base "racionalista". É, de facto, frequente que um consulente deste tipo passe subitamente de uma atitude dita reservada ou incrédula para uma fé exagerada na Astrologia.


 


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