O retomar da Tradição
uma conversa com os astrólogos Sue Ward e Robert Zoller

Por Helena Avelar e Luís Ribeiro

A Astrologia Ocidental está a redescobrir as suas origens.
Depois do grande “boom” astrológico dos anos 70 e da onda de desenvolvimento e modernização dos anos 80, assistimos hoje, com surpresa e agrado, a um ressurgir da Tradição Astrológica Ocidental.

Muitos dos estudantes e praticantes de Astrologia, depois de percorrerem as áreas vizinhas da auto-ajuda, psicologia, simbolismo e intuição, optam agora por um salutar retorno às origens. E embora a dinâmica interdisciplinar tenha dado origem a muitas descobertas interessantes, os ensinamentos baseados apenas em opiniões pessoais ou “intuições” já não são aceites de forma inquestionável. Na verdade, a última década tem sido marcada pela depuração e pelo refinamento das técnicas e abordagens astrológicas.
Um pouco por toda a Europa e nos Estados Unidos surge uma nova “geração” de estudantes de Astrologia, com grandes potencialidades mas também com grandes exigências. Tão distanciados da intuição como da “aprovação científica”, procuram sobretudo uma Astrologia onde as bases técnicas e metafísicas se “casem” numa compreensão profunda, coerente e funcional.

Entre as figuras de vanguarda deste movimento encontram-se os astrólogos Robert Zoller e Susan Ward. Ambos têm vasta experiência em diversas áreas do conhecimento astrológico e ambos optaram pela via tradicional, que consideram a mais completa e objectiva.

Robert Zoller é um dos principais investigadores da Tradição Astrológica Ocidental. Para além de ser responsável pela tradução de várias obras antigas, investiga e experimenta na sua prática diversas técnicas milenares. O seu trabalho tem contribuído largamente para a recuperação de antigos conhecimentos astrológicos.
Este astrólogo considera a Astrologia Medieval “a mais elevada forma que a Astrologia alguma vez alcançou” e afirma que do ponto de vista prático a sua fiabilidade e precisão não têm paralelo. O aspecto prático é, além disso, apoiado por um riquíssimo conteúdo filosófico e metafísico em que os “porquês” têm, de facto, explicação. Neste aspecto, a Astrologia Medieval contrasta claramente com a “validação pela opinião pessoal”, tão comum nas linhas “modernas”. Segundo este autor, isto acontece porque a Astrologia Tradicional dá grande ênfase ao método e às regras de delineação, algo que está quase ausente na prática dita “moderna”. “Em Astrologia Medieval, a previsão torna-se uma ferramenta funcional e extremamente precisa, enquanto que na prática actual a previsão é errática e muito esparsa, quando não está totalmente ausente”.

Opinião semelhante tem Susan Ward, uma das mais conceituadas praticantes e professoras de Astrologia Horária Tradicional. No seu trabalho esta renomada astróloga britânica tem vindo a realçar a importância da compreensão profunda dos princípios e das regras astrológicas.

“Quando comecei a aprender Astrologia natal “moderna”, senti que havia uma coisa que me faltava: regras. Não havia nada que me dissesse o que era aceitável ou inaceitável. E no entanto, aos meus olhos de principiante, os astrólogos pareciam saber exactamente como trabalhar. Cheguei a pensar que era estúpida e que nunca seria uma boa astróloga. Quando encontrei a Tradição foi como se todos os meus sonhos se tivessem realizado: o sistema era quase matemático e maravilhosamente lógico. Compreendo que algumas pessoas considerem as regras restritivas, mas para mim são extremamente úteis e consolidantes. Com tempo e com o aprofundar do conhecimento tornei-me capaz de estender as regras para ter mais espaço de manobra. Mas de quanto espaço preciso, se as regras resolvem o enigma da carta?”

Uma das razões para a actual proliferação de opiniões contraditórias entre os astrólogos é, na opinião desta astróloga, a ligação entre a Nova Era de Madame Blavatsky e a Astrologia. “Passou a ensinar-se que o conceito de experiência pessoal, compreensão e intuição eram as faculdades mais úteis para aprender e praticar Astrologia. Actualmente isto é a verdade aceite, e é por isso que em Astrologia natal moderna o ponto de vista de uma pessoa é tão válido como o de qualquer outra, mesmo quando se discute algo tão simples como Mercúrio combusto. Às vezes funciona, outras vezes não. Mas para um princípio ser considerado válido deve funcionar para toda a gente e, para que seja esse o caso, temos ainda de saber por que razão funciona. Para um determinado praticate pode ser correcto dizer ‘faço isto desta forma porque funciona para mim’, mas para todos os outros, isso torna-se inútil”.

Quanto a uma possível articulação entre as diversas abordagens da Astrologia, Susan Ward afirma que “as diferentes perspectivas são, em minha opinião, irreconciliáveis”. Perante o crescente número de astrólogos ‘modernos’ que começam a aplicar algumas técnicas tradicionais ao trabalho de cariz psicológico, a sua opinião é também muito clara: “Pessoalmente, não acredito na mistura de métodos. No entanto, isso não deverá impedir ninguém de explorar as diversas técnicas”.

No entanto, a sua experiência pessoal passa exactamente pelo percurso inverso: em lugar de “repescar” técnicas antigas para acrescentar às interpretações actuais, Sue tem vindo gradualmente a pôr de parte os elementos modernos, como os trans-saturninos, os midpoints, as progressões secundárias e o Chiron. “A Tradição não precisa de extras, já tem tudo – e isto não é apenas a minha opinião pessoal”.

Talvez devido à sua simplicidade e coerência, a Tradição Astrológica está a ser largamente retomada, não apenas na Europa e Estados Unidos, mas também no Extremo Oriente e no Hemisfério Sul. “Isto deve-se em parte ao amadurecimento dos estudantes da década de 80. Houve um aumento gradual do número de astrólogos que começaram a escrever, a praticar e a ensinar”. Para Sue Ward, trata-se apenas de uma questão de tempo até a Tradição ganhar aceitação geral.
“Lembro-me que na época em que conhecei os meus estudos de Astrologia Horária fui a Londres assistir a um seminário sobre o tema. Isto já era bastante raro, mas este seminário tinha sido organizado pela Associação Astrológica da Grã-Bretanha e isso, ao que parece, nunca tinha acontecido antes. Um dos oradores, penso que foi Bernard Eccles, disse que era estranho falar abertamente sobre Astrologia Horária aos membros daquela associação. Ele afirmou que estava habituado a esconder os seus mapas horários no casaco, como se se tratasse de pornografia! Isto foi há cerca de 20 anos, já avançamos muito desde essa altura”.

No que diz respeito ao grande público, Sue Ward considera que existe actualmente uma maior consciência, embora em Inglaterra sempre tenha havido uma larga franja de público interessado no tema. “Já em 1650 os almanaques anuais de William Lilly vendiam cerca de 30 mil unidades, o que corresponde aproximadamente a um almanaque por cada três famílias! Estes números indicam que havia bastante procura pela Astrologia”.
Apesar de considerar que actualmente há acesso a uma grande variedade de produtos astrológicos (os livros têm preços relativamente acessíveis e existem muitos cursos sobre o tema) esta astróloga frisa que isto não indica necessariamente que a Astrologia seja tida em maior consideração do que no passado. “Em minha opinião, pouca coisa mudou. Ainda temos maus métodos de ensino, má Astrologia e maus astrólogos. A comunidade científica e académica mostra-se ainda relutante em investigar a Astrologia, mas penso que temos de nos culpar por isso: poucos são os astrólogos que estão preparados para investigar o seu próprio tema.

Em suma, a Astrologia continua a ser vista de forma muito semelhante ao que sempre foi: há os que consideram que tem validade e os que pensam que é apenas um monte de disparates”.

Para Susan Ward, existem duas grandes vantagens na actual divulgação da Astrologia: por um lado, há um maior número de pessoas “tocadas” pelo tema, o que indica maiores possibilidades de encontrar os futuros guardiões da Tradição; por outro lado, o grande número de compradores de programas informáticos de Astrologia faz aumentar a possibilidade de desenvolver mais e melhor software. A grande desvantagem desta situação é a proliferação de métodos do tipo “fácil e rápido”, que em nada contribuem para ensinar os estudantes nem para desenvolver a Astrologia. “Há uma grande quantidade de disparates a serem ensinados e escritos em nome da Astrologia e em minha opinião isto acontece devido à enorme procura que existe para este tipo de material. Note-se que uma grande parte deste mercado serve apenas para aumentar contas bancárias, e não para fornecer informação de qualidade ou educação astrológica. A popularização da Astrologia levou a uma tendência para a rapidez e a conveniência – uma mistura descolorida e insubstancial. Um pouco como os hamburgers MacDonalds, a Astrologia foi cortada em fatias tão finas e de tal forma processada que já não tem textura, não dá satisfação e não beneficia ninguém”.

Baseando-se na sua experiência de mais de duas décadas, Sue Ward não hesita em afirmar que a Astrologia é uma arte sagrada. “Embora seja aberta a todos, apenas uns poucos vão aprofundar os estudos. Menos ainda são os que têm o temperamento para se comprometer com este estudo e devolver à Astrologia parte do que ganharam com ela. Isto não quer dizer que seja preciso ser excepcionalmente inteligente para estudar Astrologia, pois basta ter dedicação para aceder aos seus níveis mais profundos”.

O ensino é uma das principais áreas a ter em conta, pois é através de livros e de cursos que muitos dos interessados tomam contacto com o tema. Este é, no entanto, um aspecto muitas vezes negligenciado, comprometendo assim, desde o início a boa apreensão do conhecimento astrológico. “Não me compete dizer aos outros como ensinar e por certo que o meu método de ensino está longe de ser perfeito. No entanto, preocupa-me que não esteja a ser dada aos estudantes a melhor base de trabalho”.
Na perspectiva desta astróloga a maior parte dos métodos ensinam o estudante simbolismo, cálculo, direcções, etc., mas poucos ensinam a “essência” da Astrologia. “Refiro-me à forma como a sua estrutura é derivada (tanto quanto podemos compreendê-la) e a razão porque foi “construída” desta forma. Sem uma boa compreensão destas coisas é impossível, em minha opinião, praticar Astrologia correctamente. Algumas escolas ensinam um pouco de História da Astrologia, mas isso não tem grande efeito se a Filosofia contida na História não for aplicada. Não obstante, considero que ensinar é uma tarefa difícil e admiro qualquer pessoa que a assuma”.

Quanto ao futuro da Astrologia, considera que vão tornar-se gradualmente mais comuns as abordagens rigorosas à pesquisa e à educação. “Embora não gostasse de ver a Astrologia tornar-se um tema exclusivo de académicos ou de intelectuais, considero necessário que nos eduquemos mais completamente como astrólogos. Não devemos considerar isso negativo, pois permite-nos compreender a Astrologia na sua totalidade e faz de nós melhores astrólogos”.




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